Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, comemora 100 anos de sua inauguração
A construção é uma referência de patrimônio histórico, engenharia, mobilidade urbana e memória cultural florianopolitano
A Ponte Hercílio Luz foi inaugurada em 13 de maio de 1926 e é a primeira forma de ligação fixa entre a Ilha de Santa Catarina e o continente. Ela é uma parada obrigatória para viajantes apaixonados por conhecer edificações que carregam beleza e história em seus alicerces.
As obras iniciaram em novembro de 1922, idealizadas pelo então governador de Santa Catarina, Hercílio Pedro da Luz. A construção de uma ponte que conectava a capital com o restante do país ia muito além da acessibilidade e mobilidade, a política também foi um forte motivador para a realização da obra.
A travessia entre a ilha e o continente acontecia por meio de barcos e balsas, muitas vezes não era um trajeto seguro devido ao clima e comportamento das águas em dias de tempestade, o que dificultava o acesso a ilha. Consequentemente, crescia a possibilidade de transferir a capital de Santa Catarina para Lages, mais de 200 km de distância entre a ilha e o pedaço continental do estado, em razão das dificuldades de comunicação.
A solução que ajudaria a consolidar Florianópolis como capital catarinense era a construção de uma ponte permanente para substituir as travessias pelo Estreito de Florianópolis. A renomada empresa norte-americana Robinson & Steinman foi a responsável pelo desenho técnico e cálculo estrutural inovador, enquanto o escritório Byington & Sundstrom, do empresário brasilo-americano Alberto Jackson Byington, ficou a cargo da construção.
Originalmente era chamada de Ponte da Independência, contudo, com o falecimento do governador catarinense dois anos antes da conclusão da obra, a ponte veio a receber o nome Hercílio Luz em sua memória. Confira a seguir a homenagem para o um século do monumento publicada pela Prefeitura de Florianópolis.
A maior ponte suspensa do Brasil
A ponte Hercílio Luz é uma estrutura suspensa, mas o que a torna sua estrutura tão diferente de outras pontes pênseis no restante do país está no sistema que garante sua sustentação. Em vez de usar cabos de aço trançados, a ponte usa várias barras de olhais maciças conectadas de ponta a ponta por pinos grandes.
Quando os carros passam, o peso da pista puxa essas barras, que trabalham sob tração para transferir essa força até as torres e fundações. Como as pontes balançam com o vento e o trânsito, a conexão articulada do pino com o olhal permite que as barras se movam levemente, impedindo que o aço entorte ou rache com a vibração.
Segundo um estudo técnico da Universidade Federal de Santa Catarina, a UFSC, na década de 1920, a ponte era considerada um marco da engenharia mundial e colocou Florianópolis entre as cidades que possuíam uma estrutura de grande porte e tecnologia avançada para a época.

Ainda hoje ela se destaca como a maior ponte suspensa do Brasil. A mais antiga é a Ponte Pênsil de São Vicente, inaugurada em 1914, contudo, essa possui 180 m de extensão, curta distância se comparada com a Hercílio Luz, de 821 metros de extensão total e um vão principal de 339 metros.
Até a abertura da Ponte Colombo Salles, em 1975, a Hercílio Luz era a única ligação rodoviária entre a ilha e o continente. Em 1982, ela ainda concentrava cerca de 40% do tráfego de Florianópolis, aproximadamente 27 mil veículos trafegavam por ela todos os dias
Antes da construção das pontes, a travessia dependia exclusivamente de embarcações. A Hercílio Luz mudou a dinâmica, permitindo uma conexão terrestre permanente e contribuindo para a expansão urbana e econômica da capital.
Em janeiro de 1982, após seis décadas de funcionamento, a edificação começou a indicar problemas estruturais relacionados às barras de olhais, que comprometeriam a segurança da ponte. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) participou do processo de estudos técnicos sobre as suas condições estruturais.
Em 1988, houve uma reabertura limitada para pedestres, bicicletas e veículos leves. Porém, três anos depois, em 1991, a ponte voltou a ser completamente interditada. O piso asfáltico do vão central foi retirado, que reduziu cerca de 400 toneladas de peso sobre a estrutura. Ela ficou fechada por 28 anos, sendo reinaugurada apenas em 30 de dezembro de 2019.
Relevância que reflete em quatro dimensões: engenharia, mobilidade urbana, patrimônio e identidade
Na engenharia, a ponte Hercílio Luz é vista como uma edificação à frente do seu tempo, de grande ousadia técnica e uma referência no estudo sobre reabilitação e durabilidade. Por ser projetada pelos renomados engenheiros norte-americanos Robinson & Steinman, o Brasil entrou no mapa das grandes construções metálicas da década de 1920.
Quando o assunto é mobilidade urbana, a Hercílio Luz viabilizou pela primeira vez a interligação entre os dois pontos de Florianópolis separados pelo Estreito. Não apenas a consolidou como capital, mas também favoreceu o turismo na cidade.
Ao longo de um século de existência, a ponte passou por diversas intervenções de preservação e foi reconhecida como um bem material imóvel de grande relevância para a identidade e a memória de Santa Catarina. O primeiro tombamento ocorreu em 1992, no âmbito municipal de Florianópolis.
Em 1997, foi tombado em nível estadual e, no ano seguinte, recebeu o reconhecimento pelo IPHAN em nível federal. O tombamento federal é especialmente significativo por reconhecer a ponte não apenas como uma estrutura de engenharia, mas como um bem integrante do patrimônio cultural brasileiro. Neste ano, o IPHAN destacou essa trajetória ao celebrar os 100 anos da Ponte Hercílio Luz, ressaltando sua importância como símbolo de Santa Catarina, patrimônio cultural e um marco da engenharia brasileira.
Depois da reabertura em 2019, a ponte passou a ser utilizada também por pedestres e ciclistas. A área da ponte se integra aos espaços públicos das duas extremidades e pode ser visitada como espaço público e ponto turístico, e não apenas observada de longe. A Prefeitura de Florianópolis destaca a ponte como um espaço de visitação, encontro e contemplação da paisagem.
Ao fazer a visita a pé, o turista pode observar o vão central, a Baía Norte, a região continental e a Ilha de Santa Catarina, além de detalhes da estrutura que não são perceptíveis quando vista de longe. Então, se você estiver passando por Florianópolis, não deixe de incluir essa atração monumental na sua lista de lugares para visitar.
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